Trecho - Kalki


  Ia se preparar para o seu ritual, após tomar o devido banho contra as impurezas da alma e do corpo; notara diferenças também no fluir da água, povoada por milhões de pequeninas estrelas, imperceptíveis aos olhos do homem comum: os cristais d’água, que respondiam à sua vibração com delicadas e brilhantes formas geométricas transparentes. Poderia ficar a tarde inteira sentindo a água por sua pele em complemento à água de dentro de seu corpo, a admirar a formação de um conjunto líquido harmonioso e dinâmico, mas tinha deveres maiores a cumprir consigo mesmo.
  Contudo, assim que entrou em sua sala, sentiu um misto de susto e contentamento: o primeiro porque não era nada comum ver alguém sentado no sofá de sua sala sem que fosse ele mesmo, além do fato de ninguém ter batido à porta, por mais que o imprevisto de certas visitas não fosse tanto; o segundo porque não precisaria realizar nenhuma cerimônia, aparentemente, para ficar na presença de seu anjo da guarda, que já se encontrava ali. Dividiu-se em dois por um instante, porém logo percebeu a junção entre seus eus partidos e aprumou-se.
- Olá, precioso amigo.- Os raios do sol poente entravam no lugar com um pouco de timidez, clareando as bordas das cortinas escuras.- Aqui estou, para que lhe possa responder.
  No entanto, era maravilhoso demais para ser verdade. Estranhou não só o jeito de falar do anjo, como a energia que este emanava, pesada e densa demais para uma presença celestial. “Que raio de anjo “bombado” é esse?”, indagou-se, ficando em silêncio por alguns instantes, a fitar seu visitante com toda a atenção, de baixo para cima, de cima para baixo...Não cometeria tamanha descortesia com um anjo verdadeiro, diante do qual não haveria imposição para reconhecer sua Divindade. O que estava ali parecia querer forçá-lo a se ajoelhar aos seus pés...
- Vim atendendo o seu chamado. Não vai me perguntar nada? Ou me chamou apenas por vaidade humana, para testar seu poder de evocação?
- A pressa não é uma virtude angélica. Você é um impostor.
- Quem é você para me julgar? Não passa de um humano.- Por debaixo da túnica branca, começou a se esgueirar uma cauda escamosa e agitada, que a criatura tentava ocultar, sem sucesso, pois esta se sacudia e pedia para aparecer.
- Menosprezando a Inteligência e a Divindade alheia...Mais uma prova que você não é um anjo. A menos que seja um caído. Onde estão as suas asas? Só estou vendo um rabo sujo.
-  Você escolheu o pior caminho...- Foi nessa hora que Marco viu o mundo desaparecer ao seu redor, substituído por um fundo sem cor e sem luz; de repente, só restou ele, para si mesmo...
  “Mas que loucura é essa?”, uma explosão sem som; uma dor sem presença...
  Quando menos esperava, sentiu suas pernas aumentarem de tamanho, idem seus braços, esticados sem parar, até chegar a dor de estar sendo puxado; mal teve oportunidade de gritar quando os dentes de sua boca balançaram, as gengivas se abriram, e veio a sensação de um ferro quente passando por sua coluna vertebral e por suas articulações; o calor vinha de dentro para fora...
  Viu pessoas pegando fogo, ao ar livre, mas como se tivessem entrado em um forno micro-ondas, e correndo para afogar o desespero, sem no entanto alcançarem a salvação: o tronco incinerado e apenas pedaços de cotovelos e joelhos a salvo. Compreendeu que isso podia acontecer com ele: fenômenos de combustão espontânea provocados pelo descontrole da kundalini.
  Quando achou que não podia mais suportar as imagens e aquele calor, que nada era pior que o fogo, um frio polar tomou conta de suas juntas, seus ossos começaram a balançar, seu olho direito derramou; ficou com medo de ficar torto ou deformado...Foi aí que viu o vaso sanguíneo de um cérebro estourando, e pessoas que tentaram prematuramente despertar a kundalini vítimas de derrames, passando o resto da vida tetraplégicas ou, pior, perdendo a vida...
  Soube, por explicações que não pôde definir de onde vinham, mas que eram precisas e certeiras, quiçá de seu Eu Superior ou de algum mestre tentando se comunicar desesperadamente, que o que lhe aparecera e tentava lhe infundir terror era seu demônio pessoal, seu eu inferior, o demônio da perdição, o guardião do umbral, contraparte degradada do anjo da guarda. Belo como um espírito celestial! Mas bastava devassar com atenção o que era sua essência, não o que mostrava, para enxergar um humanoide deformado, com uma cauda de serpente saindo da base da coluna, cuja energia permanecia estática, e grandes chifres hostis para afastar o chakra coronário e tentar furar a Luz, embora fosse impossível.
  “Na mesma medida em que o anjo da guarda protege e ata, une o homem a Deus, o demônio da perdição, ou guardião do umbral, desagrega o existente e separa o ser humano da sua razão de ser, que é a fusão com o Cosmo. O Eu Superior é o verdadeiro Espírito, que nunca despencou nos níveis mais densos, eternamente íntegro; o eu inferior é a junção caótica das várias partes que caíram nos planos inferiores, os pedaços de cada ato cruel, as migalhas de cada pensamento sórdido, e foram abandonadas, esquecidas ou reprimidas, não transcendidas. O demônio da perdição, ou eu inferior, como prefira chamá-lo, não irá deixar de existir enquanto você não se unir definitivamente ao seu Eu Superior. Enquanto não realizar isso, o demônio crescerá em poder e vontade na mesma medida que você, que por isso deverá sempre redobrar seus esforços. Quando chegar o dia da vitória, ele irá explodir de uma vez só, pois não tem controle sobre o que é incontrolável, a água escapa de seus dedos, o ar não pode ser agarrado...”
  Contudo, sentia-se ainda numa sala cheia de serpentes venenosas. Podia até ouvir seus sibilos, o que durou mais alguns minutos, enquanto permanecia imóvel.
  Ao retornar ao mundo, à sua sala, de frente para o seu sofá, onde continuava de pé, não havia mais ninguém. No entanto, não houve possibilidade de comemoração ou alívio, pois sentiu uma dor tremenda com o estouro de sua coluna: pelo que parecia, o líquido da kundalini queimara um de seus ossos e agora desestabilizava todo o resto de sua estrutura. Pôde ver suas vértebras partidas, a despencar umas sobre as outras, e por fim a substância escaldante e gelada abandonar sua cabeça e a base de sua coluna para se dirigir desordenadamente para diversas partes de seu corpo. Seu tormento o envolveu de maneira tal que não havia nenhuma escapatória: portas fechadas, janelas quebradas dirigidas para o abismo e corredores sem muros, num labirinto que se estendia para os céus; só que ele não podia voar.


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